Primeiro Capítulo de “Vale Tudo” (16 de maio de 1988)
“A minha filha é boa. Ela foi
enganada por alguém. Ela tá precisando de ajuda”.
VALE A PENA
SER HONESTO NO BRASIL? Uma novela atemporal, com vilões icônicos, tramas cativantes
e uma grande reflexão sobre o caráter do Brasil no final dos anos 1980 – Será que
mudou muita coisa? Com autoria de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor
Bassères, “Vale Tudo” é um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira,
muito aclamada, elogiada e amada pelos noveleiros. Um verdadeiro sucesso! Um
clássico! E eu, que nunca assisti à primeira versão da novela (era um bebê de
pouco mais de um ano, na época), diante do remake que a Globo decidiu
fazer, resolvi conferir a versão original. E embora saiba quase tudo sobre a
história, inclusive o final emblemático sobre Quem matou Odete Roitman?,
confesso que está sendo uma delícia visitar esse êxito da nossa televisão.
Sendo assim, de agora em diante, vocês encontrarão reviews da novela por
aqui. Espero que gostem.
A primeira
cena do capítulo é de Raquel e Rubens. Eles são casados, pais de Maria de Fátima,
e a vida que levam não está nada bem. Quando Rubens chega em casa, bêbado, no
meio da madrugada, Raquel está esperando por ele, e eles discutem feio, porque ela
reclama por estarem passando necessidade, porque Rubens perdeu o emprego, porque
Maria de Fátima está precisando de tratamento odontológico e porque as contas estão
atrasadas, enquanto ele, irresponsável, só pensa em gastar o dinheiro com
bebida – E eu não consigo levar a cena muito a sério por conta da atuação
exagerada de Regina Duarte (hahahahaha). Naturalmente, Raquel tem razão, e a briga
termina com ela levando uma bofetada de Rubens depois de jogar na cara dele que
não tem sido homem para assumir suas responsabilidades (fato), e Maria de
Fátima, ainda criança, presencia tudo aquilo.
Então,
Raquel decide pela separação após onze anos de casamento.
Assim, ela e
Fátima se mudam de São Paulo para Foz do Iguaçu, onde mãe e filha, agora, passam
a viver com Salvador, o pai de Raquel – Gente, eu moro em Foz do Iguaçu já tem
um bom tempo, e foi uma delícia, pra mim, ver imagens da cidade naquela época
em que a novela foi gravada. É aquela coisa de nostalgia mesmo que você não tenha
vivido na cidade naquele tempo. Aqui, a trama ganha um salto, e estamos na
festa de aniversário de 21 anos de Maria de Fátima, que não está nada animada e
muito infeliz com a simplicidade em que vive. Ela é ambiciosa e quer muito
mudar de vida, bem diferente de Raquel que se contenta com o necessário trabalhando
como guia turístico – As cenas de Raquel como guia são hilárias, tendo que
desenrolar o inglês e o espanhol para se comunicar com os turistas (hahahahaha).
E ela faz o que pode.
Logo, numa
cena em que está conversando com a mãe, Maria de Fátima repreende Raquel por não
ter aceitado se envolver com um argentino casado, rico e com condições de dar a
todos uma vida melhor. O que Fátima mais quer é ir embora de Foz do Iguaçu e não
saber mais nada de ninguém da cidade. E ela não vai medir esforços e aproveitar
cada oportunidade para conseguir o que deseja. No decorrer do capítulo conhecemos
Ivan, que almeja conseguir um bom emprego no Rio de Janeiro porque a vida está difícil,
as despesas só aumentam e ele precisa dar conta da criação do filho – Meu Deus,
o Danton Melo era uma gracinha criança –, além de também ter que sustentar Leila,
a ex-esposa que, formada em Psicologia, também está buscando por um emprego,
mas se recusa a terminar atrás de um balcão como vendedora.
Já sabemos que Leila vai dar trabalho.
Em um hotel cinco
estrela, em Foz do Iguaçu, onde consegue ter livre acesso por conhecer pessoas
que trabalham no lugar, Fátima se sente atraída por César quando vê o bonitão
nadando na piscina. Ele é o modelo que está na cidade para a gravação de um
comercial para a Tomorrow, junto com uma galera. E ela logo dá um
jeito de se aproximar dele para tentar algo no comercial, depois de escutar uma
conversa entre César e os amigos sobre uma manequim que deu o bolo no
trabalho. Assim, Fátima finge que é hospede do hotel para puxar assunto com ele,
mas antes escuta uma conversa dele, ao telefone, sobre algum problema que está
tendo na alfândega com sua mercadoria. César não dá muita moral pra ela, e é aí
que ela é esperta e apela para um plano que chama a atenção dele: fingir
conhecer uma pessoa que trabalha na alfândega. Logo, ele resolve ajudá-la com o
comercial, esperando que ela o ajudará com o assunto da mercadoria.
Depois, na entrada
do hotel, Fátima dá de cara com Raquel chegando com os turistas, toda alegre,
espalhafatosa e falando muito muito muito alto. Então, ela humilha a mãe,
pedindo para que ela, quando estiver fazendo escândalo, feito uma louca, que
lhe faça o favor de não dizer que é sua mãe. Eita! E é claro que essa
atitude não cai bem em Raquel. Em casa, Fátima pede para o avô, Salvador, que trabalha
na alfândega, passar a mercadoria contrabandeada de César, mas não consegue nenhum
êxito com isso, porque Salvador é um homem íntegro e incorruptível. E é hilário
ver Maria de Fátima cantarolando o hino nacional enquanto ele faz um sermão
sobre honestidade, embora também seja algo sério. Naturalmente, há todo um diálogo
e discussão sobre princípio, honra, dignidade e ser honesto no Brasil, coisas
que Salvador preza e que a neta não dá a mínima, já que para ela, o avô não
chegará a lugar nenhum com sua honestidade, porque de uma maneira ou de outro,
o Brasil é um país corrupto.
Um pensamento
que não está muito longe da realidade de ontem e de hoje.
No fim das
contas, Fátima não consegue ajudar César, e inventa para ele que o cara que
ia ajudá-la caiu fora. Ela já está de rolo com César, mesmo que a ajuda
dele, para o comercial, não tenha rendido nada para ela, pois era apenas uma
ponta sem grande destaque. Mas Maria de Fátima está decidida a ir para o Rio de
Janeiro e quer saber se pode contar com ele quando chegar na cidade
maravilhosa, e a resposta é positiva: César lhe dá seu telefone, se despede
dela e volta para a capital carioca. Com a ideia fixa de mudar para o Rio de
Janeiro, para seguir carreira de modelo, Fátima tenta convencer Raquel a ir com
ela, mas a mãe é uma mulher sem grandes ambições, de coração bom e que adora a
vida simples que leva em Foz do Iguaçu. Raquel não vê nenhum futuro em cidade
grande, com as dificuldades de um grande centro e com toda a violência. Porém,
a grande chance de Fátima está para chegar.
Quando Salvador
morre, após sofrer um derrame cerebral, é um baque para Raquel. Rubens está
presente para lhe dar algum tipo de apoio, mas também para aproveitar e lhe
pedir dinheiro emprestado (kkkkkkkkkkk), o que Raquel não dá, obviamente.
Enquanto isso, Maria de Fátima insiste para que ela venda a casa para que
possam ir embora para o Rio de Janeiro, tomar um banho de loja e recomeçarem a
vida: ela como modelo e Raquel procurando por um marido rico, porque “até
que é bonitinha” (kkkkkkkk) – Meu Deus, Fátima não tem papas na língua. Ela é ácida.
E ela está realmente obcecada com a capital carioca (hahahahaha). Porém, Raquel
não admite nenhuma “mania de grandeza” da filha, que quer tudo de mão beijada
ao invés de estudar, porque se fosse para estudar para ser modelo, ela até que
faria a vontade de Maria de Fátima. Assim, as duas discutem e a resposta de
Raquel é “não, não e não”.
E essa é
outra cena com Regina Duarte que eu dei boas risadas. Eu não sabia, ou não tinha
me dado conta, do talento da atriz para atuações exageradas e canastronas (kkkkkkkkkkkkk).
No Rio de Janeiro, Ivan e a família estão felizes porque ele conseguiu o tão sonhado
emprego na capital carioca – Acho que dava para perceber que uma novela da
Globo, que não começava no Rio de Janeiro, dava o maior foco para o Rio de
Janeiro porque uma hora ela ia se passar no Rio de Janeiro (hahahahaha). No
entanto, quando ele chega para assumir sua vaga de trabalho na firma que foi
contratado, ele é demitido com outros 90% dos trabalhadores, porque a
empresa foi “encampada pelo Grupo Almeida Roitman”. E Ivan fica revoltado e
desesperado, o que é muito natural, principalmente depois de ter largado tudo e
ter se mudado para o Rio de Janeiro, fazendo mais dívidas. Agora,
ele está sem nada, e até tenta voltar ao antigo emprego em São Paulo, mas a
vaga já está preenchida por outra pessoa. De volta à Foz do Iguaçu, Maria de
Fátima vende a casa que o avô deixou em seu nome, se manda para o Rio de
Janeiro e deixa Raquel no olho da rua.
Com isso,
Raquel não quer acreditar que afilha tenha tido a coragem para tanto,
acreditando que Fátima irá voltar porque foi enganada por alguém: o modelo que
conheceu no hotel e que está na capa de uma revista que ela tem em casa: César.
Eu já amo a
Maria de Fátima, ela já começa a novela mostrando que vai agarrar, com unhas e
dentes, tudo o que puder para subir na vida. O problema não é a grande ambição
que a personagem tem, o problema é o caminho que ela trilha para chegar no
topo. E isso nos rende uma trama cheia de momentos interessantes. Quando chega
na capital carioca, uma das primeiras coisas que Fátima faz é dar a volta
no motorista de táxi que tentou enganá-la com o valor da corrida, achando que
ela é burra. Então, ela pede para ele parar numa galeria para ela fazer uma
compra e vaza fora, enganando o cara. Eu acho um máximo! E quando o motorista vai
verificar uma caixa que ela deixou no banco de trás, de uma loja que ela havia
entrado um pouco antes, ele encontra uma banana dentro (kkkkkkkkkk). Maria de
Fátima é safa. Ela é esperta!
Também não poderia
deixar de mencionar outro momento hilário do capítulo, quando Aldeíde, uma das
poucas funcionárias que não foi demitida da firma que Ivan ia trabalhar, por ser secretária, decide
roubar todos os rolos de papel higiênico e todos os sabonetes do banheiro da firma,
porque nunca se sabe o dia de amanhã (kkkkkkkkkkk). A personagem foi
interpretada por Lilia Cabral, e rendeu ótimos momentos de comédia para a novela.
No Rio de Janeiro, Fátima está procurando pelo pai, mas não consegue encontrá-lo.
Ela chega a ter uma breve conversa com Audálio, um cara super alto astral e
gente boa, que todo mundo chama de Poliana, por ter a mesma vibe da
personagem do romance de Eleanor H. Porter: sempre enxergar o lado bom da vida.
E é o Poliana que ajuda Maria de Fátima a se instalar em um hotelzinho simples.
E, no hotel, ela liga para César, que dá uma desculpa para não ter quer se
encontrar com ela e pede para que ligue para ele no dia seguinte.
Nesse
primeiro capítulo também temos Helena Roitman, a Heleninha, uma das grandes
personagens de Renata Sorrah na televisão brasileira. Heleninha está saindo de
uma clínica de recuperação após um bom tempo em tratamento contra o álcool, e é
a querida tia Celina quem prepara a casa para recebê-la e quem vai buscá-la na
clínica. Assim, Heleninha está esperançosa de que vai conseguir reaver o contato
com o filho e recuperar novamente sua vida, mas fica claro que ela terá vários
problemas não só com a bebida, mas também com o ex-marido Marco Aurélio, decido
a só deixá-la chegar perto do filho dos dois sob a supervisão dele, como
decidiu o juiz, porque, para ele, ela continua um perigo. Marco Aurélio é o
autoritário diretor da TCA, e vemos a autoridade dele em evidência quando chega
na empresa dando ordens, sendo rígido e antipático com todo mundo.
Precisando muito
de um novo emprego, Ivan consegue, com ajuda de Aldeíde, marcar uma entrevista
para um novo trabalho. E pode ser que as coisas comecem a entrar nos trilhos.
A família
ainda não sabe que ele nem chegou a assumir o emprego no Rio, e ele prefere
esconder a verdade, por enquanto, até conseguir reverter toda a situação,
embora não tenha muito tempo pra isso. Ao ligar novamente para César, Fátima
consegue chamar a atenção dele após mentir que está hospedada no Copacabana
Palace, e César, interesseiro, quer vê-la em uma hora. Então, ela se hospeda no
luxuoso hotel usando a grana da venda da casa, e, finalmente, consegue ter um
encontro com ele. Essa Maria de Fátima é danada! Depois de se despedir da casa vendida
em Foz do Iguaçu, numa cena melodramática, e com cento e cinquenta mil cruzados
na calcinha, porque pode precisar para alguma coisa, Raquel decide ir atrás da
filha – Olha como ela é precavida contra perdas, roubos e assaltos (hahahahaha).
Na rodoviária, ela se despede de Marisa, uma grande amiga, e parte para o Rio
de Janeiro para achar Maria de Fátima, porque acredita que a filha foi
ludibriada e enganada por alguém.
Coitada, Raquel
está completamente enganada. “A minha filha é boa. Ela foi enganada por alguém.
Ela tá precisando de ajuda”. Acorda, Raquel.
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